Direito marítimo

Contrabando e Tráfico Marítimo: como o Brasil e o mundo combatem o crime nos mares

Panorama

Mais de 80% do comércio global circula por via marítima, o que torna navios e portos vetores estratégicos para contrabando (introdução de mercadorias proibidas) e tráfico internacional (drogas, armas, fauna, pessoas). Os criminosos exploram contêineres, rotas transbordo e portos com fiscalização desigual, além de camadas contratuais complexas (afretadores, NVOCCs, terminais). A resposta eficaz combina marco jurídico sólido, inteligência aduaneira, compliance das companhias e cooperação internacional.

Conceitos e distinções necessárias

  • Contrabando: entrada ou saída de mercadoria proibida (v.g., armas, agrotóxicos, medicamentos sem registro). No Brasil, art. 334-A do CP. Não se confunde com descaminho (fraudar tributos, art. 334 do CP).
  • Tráfico internacional: transporte transnacional de drogas (Lei 11.343/2006), armas (Lei 10.826/2003), pessoas (Lei 13.344/2016), fauna e bens culturais. Envolve redes, rotas e lavagem de capitais (Lei 9.613/1998).
  • Roubo/assalto marítimo e pirataria são fenômenos distintos; aqui o foco são mercadorias ilícitas em cadeias logísticas.

Arcabouço jurídico internacional e portuário

  • UNCLOS/CNUDM: define jurisdições (alto-mar, ZEE, mar territorial) e dever de cooperação contra ilícitos.
  • Convenção SUA (1988): criminaliza atos contra a segurança da navegação (útil quando o contrabando envolve violência/sequestro de navios).
  • Convenções de Viena (1988 drogas) e Palermo (2000 – crime organizado transnacional): cooperação, extradição, assistência jurídica mútua.
  • SOLAS + ISPS Code: segurança de navios e instalações portuárias, AVSEC/MARSEC e planos de proteção.
  • WCO/OMD (Organização Mundial das Aduanas): SAFE Framework, gestão de risco e programa AEO (Operador Econômico Autorizado).
Brasil — fundamentos internos

  • CP arts. 334 e 334-A — descaminho e contrabando.
  • Lei 11.343/2006 — drogas (transnacionalidade como causa de aumento).
  • Lei 13.344/2016 — tráfico de pessoas (prevenção e repressão).
  • Lei 9.613/1998 — lavagem de capitais (confisco, cooperação).
  • Lei 9.537/1997 – LESTA e RLESTA — segurança do tráfego aquaviário.
  • Regulamento Aduaneiro (Dec. 6.759/2009) — controle aduaneiro e penalidades.

Como as quadrilhas operam na cadeia de contêineres

Modus operandi frequentes

  • Rip-on/rip-off: inserção clandestina em contêiner após lacrado (pátios, rodovias, terminais), trocando o seal.
  • Falsa declaração: HS code trocado, misdeclaration de peso/conteúdo, shipper de fachada.
  • Transbordo opaco (hub-and-spoke): múltiplos portos para diluir rastros.
  • Corrupção em terminais e transportadoras terrestres.

Pontos críticos de risco

Portões e pátios (gate/yard)
alto
Transporte rodoviário/rail para o porto
alto
Navio em viagem (tampering a bordo)
médio
Armazéns alfandegados
médio

Indicador qualitativo: risco varia conforme rotas, governança, histórico de incidentes e presença de AEO/ISPS.

Ferramentas de prevenção e dissuasão

  • Gestão de risco aduaneira: perfis por HS code, origem/destino, comportamento do exportador, canal vermelho para contêineres de alto risco.
  • Inspeção não intrusiva: scanners, detectores, cães de faro, pesagem verificada (VGM/SOLAS).
  • Integridade de lacres: high security seals ISO 17712, cadeia de custódia digital, fotos do seal/porta.
  • Compliance de armadores/terminals: KYC de clientes, listas de sanções, flagging de BL suspeitos, due diligence de NVOCCs.
  • Programas AEO: benefícios (canal verde, prioridade) atrelados a segurança física e documental.
  • Cooperação: trocas de inteligência com PF/Receita/Marinha, plataformas WCO e Centros de Fusão regionais.
Checklist rápido para transportadores e agentes de carga

  1. Valide shipper/consignee (KYC) e rota comercial plausível.
  2. Cruze HS code com descrição e peso; desconfie de “general cargo” com baixa densidade.
  3. Exija evidências de stuffing supervision (fotos, lacre, VGM).
  4. Monitore contêiner em “hot corridors” com tracking e geofencing.
  5. Reporte anomalias antes do embarque; preserve e compartilhe logs.

Responsabilidades e consequências jurídicas

Penal

  • Contrabando (CP 334-A): reclusão; apreensão e perdimento de bens.
  • Drogas (Lei 11.343/2006) com transnacionalidade: causa de aumento; cooperação internacional.
  • Tráfico de pessoas (Lei 13.344/2016): penas elevadas; proteção da vítima.
  • Lavagem (Lei 9.613/1998): bloqueio de ativos, confisco alargado.

Administrativo e civil

  • Perdimento de mercadoria e veículo (Regulamento Aduaneiro).
  • Multas, suspensão de recintos/recintos e cassação de habilitações.
  • Responsabilidade contratual (BL/charterparty): desvios, atrasos, general average, prêmios war-risk.
  • Sanções internacionais: listas OFAC/EU; risco de de-risking bancário.
Armadilhas jurídicas e operacionais

  • Subestimar conivência interna em gates e pátios.
  • Ignorar misdeclaration em BL e discrepâncias de peso (VGM).
  • Falta de cadeia de custódia de imagens/documentos — fragiliza prova e seguro.
  • Não mapear restrições de sanções por país/porto/bandeira.

Fluxo prático de atuação integrada (porto/aduana/polícia)

  1. Targeting: análise de risco (histórico, origem/destino, HS, anomalias).
  2. Hold do contêiner e inspeção não intrusiva; se necessário, desova com vídeos e balança certificada.
  3. Cadeia de custódia: etiquetagem, lacres, registros fotográficos, inventário.
  4. Inquérito: vínculos societários, finanças, rota do dinheiro; cooperação internacional (MLAT).
  5. Perdimento e responsabilização: medidas assecuratórias; comunicação às seguradoras e armadores.

Conclusão

O combate ao contrabando e ao tráfico internacional via marítima exige um tripé: (i) regulação e cooperação (UNCLOS, Viena/Palermo, WCO, ISPS); (ii) operações inteligentes (gestão de risco, scanners, AEO, integridade de lacres, due diligence de clientes); e (iii) responsabilização efetiva (penal, civil, administrativa, lavagem e sanções). Companhias de navegação e terminais que internalizam compliance logístico e compartilham inteligência com autoridades reduzem drasticamente a superfície de ataque das quadrilhas, preservando segurança, reputação e continuidade de negócios.

Panorama

Mais de 80% do comércio global circula por via marítima, o que torna navios e portos vetores estratégicos para contrabando (introdução de mercadorias proibidas) e tráfico internacional (drogas, armas, fauna, pessoas). Os criminosos exploram contêineres, rotas transbordo e portos com fiscalização desigual, além de camadas contratuais complexas (afretadores, NVOCCs, terminais). A resposta eficaz combina marco jurídico sólido, inteligência aduaneira, compliance das companhias e cooperação internacional.

Conceitos e distinções necessárias

  • Contrabando: entrada ou saída de mercadoria proibida (v.g., armas, agrotóxicos, medicamentos sem registro). No Brasil, art. 334-A do CP. Não se confunde com descaminho (fraudar tributos, art. 334 do CP).
  • Tráfico internacional: transporte transnacional de drogas (Lei 11.343/2006), armas (Lei 10.826/2003), pessoas (Lei 13.344/2016), fauna e bens culturais. Envolve redes, rotas e lavagem de capitais (Lei 9.613/1998).
  • Roubo/assalto marítimo e pirataria são fenômenos distintos; aqui o foco são mercadorias ilícitas em cadeias logísticas.

Arcabouço jurídico internacional e portuário

  • UNCLOS/CNUDM: define jurisdições (alto-mar, ZEE, mar territorial) e dever de cooperação contra ilícitos.
  • Convenção SUA (1988): criminaliza atos contra a segurança da navegação (útil quando o contrabando envolve violência/sequestro de navios).
  • Convenções de Viena (1988 drogas) e Palermo (2000 – crime organizado transnacional): cooperação, extradição, assistência jurídica mútua.
  • SOLAS + ISPS Code: segurança de navios e instalações portuárias, AVSEC/MARSEC e planos de proteção.
  • WCO/OMD (Organização Mundial das Aduanas): SAFE Framework, gestão de risco e programa AEO (Operador Econômico Autorizado).
Brasil — fundamentos internos

  • CP arts. 334 e 334-A — descaminho e contrabando.
  • Lei 11.343/2006 — drogas (transnacionalidade como causa de aumento).
  • Lei 13.344/2016 — tráfico de pessoas (prevenção e repressão).
  • Lei 9.613/1998 — lavagem de capitais (confisco, cooperação).
  • Lei 9.537/1997 – LESTA e RLESTA — segurança do tráfego aquaviário.
  • Regulamento Aduaneiro (Dec. 6.759/2009) — controle aduaneiro e penalidades.

Como as quadrilhas operam na cadeia de contêineres

Modus operandi frequentes

  • Rip-on/rip-off: inserção clandestina em contêiner após lacrado (pátios, rodovias, terminais), trocando o seal.
  • Falsa declaração: HS code trocado, misdeclaration de peso/conteúdo, shipper de fachada.
  • Transbordo opaco (hub-and-spoke): múltiplos portos para diluir rastros.
  • Corrupção em terminais e transportadoras terrestres.

Pontos críticos de risco

Portões e pátios (gate/yard)
alto
Transporte rodoviário/rail para o porto
alto
Navio em viagem (tampering a bordo)
médio
Armazéns alfandegados
médio

Indicador qualitativo: risco varia conforme rotas, governança, histórico de incidentes e presença de AEO/ISPS.

Ferramentas de prevenção e dissuasão

  • Gestão de risco aduaneira: perfis por HS code, origem/destino, comportamento do exportador, canal vermelho para contêineres de alto risco.
  • Inspeção não intrusiva: scanners, detectores, cães de faro, pesagem verificada (VGM/SOLAS).
  • Integridade de lacres: high security seals ISO 17712, cadeia de custódia digital, fotos do seal/porta.
  • Compliance de armadores/terminals: KYC de clientes, listas de sanções, flagging de BL suspeitos, due diligence de NVOCCs.
  • Programas AEO: benefícios (canal verde, prioridade) atrelados a segurança física e documental.
  • Cooperação: trocas de inteligência com PF/Receita/Marinha, plataformas WCO e Centros de Fusão regionais.
Checklist rápido para transportadores e agentes de carga

  1. Valide shipper/consignee (KYC) e rota comercial plausível.
  2. Cruze HS code com descrição e peso; desconfie de “general cargo” com baixa densidade.
  3. Exija evidências de stuffing supervision (fotos, lacre, VGM).
  4. Monitore contêiner em “hot corridors” com tracking e geofencing.
  5. Reporte anomalias antes do embarque; preserve e compartilhe logs.

Responsabilidades e consequências jurídicas

Penal

  • Contrabando (CP 334-A): reclusão; apreensão e perdimento de bens.
  • Drogas (Lei 11.343/2006) com transnacionalidade: causa de aumento; cooperação internacional.
  • Tráfico de pessoas (Lei 13.344/2016): penas elevadas; proteção da vítima.
  • Lavagem (Lei 9.613/1998): bloqueio de ativos, confisco alargado.

Administrativo e civil

  • Perdimento de mercadoria e veículo (Regulamento Aduaneiro).
  • Multas, suspensão de recintos/recintos e cassação de habilitações.
  • Responsabilidade contratual (BL/charterparty): desvios, atrasos, general average, prêmios war-risk.
  • Sanções internacionais: listas OFAC/EU; risco de de-risking bancário.
Armadilhas jurídicas e operacionais

  • Subestimar conivência interna em gates e pátios.
  • Ignorar misdeclaration em BL e discrepâncias de peso (VGM).
  • Falta de cadeia de custódia de imagens/documentos — fragiliza prova e seguro.
  • Não mapear restrições de sanções por país/porto/bandeira.

Fluxo prático de atuação integrada (porto/aduana/polícia)

  1. Targeting: análise de risco (histórico, origem/destino, HS, anomalias).
  2. Hold do contêiner e inspeção não intrusiva; se necessário, desova com vídeos e balança certificada.
  3. Cadeia de custódia: etiquetagem, lacres, registros fotográficos, inventário.
  4. Inquérito: vínculos societários, finanças, rota do dinheiro; cooperação internacional (MLAT).
  5. Perdimento e responsabilização: medidas assecuratórias; comunicação às seguradoras e armadores.

Conclusão

O combate ao contrabando e ao tráfico internacional via marítima exige um tripé: (i) regulação e cooperação (UNCLOS, Viena/Palermo, WCO, ISPS); (ii) operações inteligentes (gestão de risco, scanners, AEO, integridade de lacres, due diligence de clientes); e (iii) responsabilização efetiva (penal, civil, administrativa, lavagem e sanções). Companhias de navegação e terminais que internalizam compliance logístico e compartilham inteligência com autoridades reduzem drasticamente a superfície de ataque das quadrilhas, preservando segurança, reputação e continuidade de negócios.

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