Cardiopatia Congênita Cianótica: Regras e Provas para Benefícios e Cirurgias
O reconhecimento da cardiopatia congênita cianótica exige prova da hipoxemia e impacto funcional para isenção de carência.
No cotidiano das famílias que enfrentam o diagnóstico de uma doença cardíaca congênita cianótica, o desafio médico é apenas o primeiro degrau. Na vida real, o que costuma dar errado é a interpretação simplista de que a cirurgia corretiva “cura” a condição, levando a negativas injustas de Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) ou auxílios previdenciários. Planos de saúde, por sua vez, frequentemente tentam limitar o acesso a próteses de alta tecnologia ou home care, ignorando que a cianose sinaliza uma falência circulatória que não permite esperas burocráticas.
O tema vira uma confusão jurídica e administrativa por causa das lacunas na documentação de impacto funcional. Enquanto o médico foca na anatomia do coração (como a Tetralogia de Fallot ou a Transposição das Grandes Artérias), os peritos do INSS buscam a prova da incapacidade laboral ou do impedimento de longo prazo. Essa desconexão, somada a políticas vagas de auditoria das operadoras, resulta em disputas judiciais escalonadas, onde a prova técnica da baixa saturação de oxigênio (hipoxemia) acaba sendo o único fiel da balança para garantir a sobrevivência e o sustento do paciente.
Este artigo vai esclarecer os testes fundamentais exigidos para a prova jurídica, a lógica de avaliação do nexo funcional e o fluxo prático para reverter negativas de tratamento e de benefícios. Abordaremos desde os critérios de isenção de carência por cardiopatia grave até as obrigações das redes de saúde em fornecer cirurgias paliativas e definitivas. Entender esses padrões é essencial para transformar um laudo clínico em uma ferramenta de direito inatacável, protegendo a dignidade de quem nasce com o coração desafiado pela falta de oxigenação.
Marcos de decisão e prova essencial na cardiopatia cianótica:
- Saturação de Oxigênio (SpO2): Níveis persistentemente abaixo de 90% em repouso configuram a gravidade clínica e o risco de lesão em órgãos-alvo.
- Classificação de NYHA/Ross: A descrição precisa da fadiga aos esforços (mesmo em crianças) é o que define o grau de incapacidade perante a perícia.
- Ecocardiograma com Doppler: O documento deve itemizar o nexo entre o defeito anatômico e o shunt (mistura de sangue), provando a natureza cianótica.
- Relatório de Assistência Multidisciplinar: A necessidade de fisioterapia respiratória e acompanhamento nutricional reforça o conceito de impedimento de longo prazo.
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Última atualização: 28 de janeiro de 2026.
Definição rápida: Doenças cardíacas congênitas cianóticas são malformações do coração presentes ao nascimento que impedem a oxigenação adequada do sangue, causando a coloração azulada da pele (cianose) e graves riscos sistêmicos.
A quem se aplica: Recém-nascidos, crianças e adultos (pacientes “GUCH” – Grown-Up Congenital Heart) que possuem lesões residuais ou patologias não operáveis, além de seus responsáveis legais que buscam amparo previdenciário.
Tempo, custo e documentos:
- Tempo de Resposta: Em casos de cirurgia urgente negada, a liminar judicial costuma ser apreciada em até 24 horas; no INSS, a análise leva de 45 a 90 dias.
- Documentação Técnica: Ecocardiograma fetal e neonatal, Cateterismo cardíaco, exames de gasometria arterial e histórico de cirurgias paliativas (Blalock-Taussig).
- Custo de Prova: Frequentemente exige a contratação de médico assistente para a perícia judicial, a fim de traduzir a complexidade hemodinâmica para o juiz.
Pontos que costumam decidir disputas:
Further reading:
- A Refratariedade Terapêutica: Provar que mesmo após múltiplas cirurgias, a hipoxemia persiste, impedindo a vida laboral ou escolar normal.
- Nexo de Cardiopatia Grave: O enquadramento jurídico no rol de doenças que dispensam carência para auxílio-doença ou aposentadoria.
- Risco de Síndrome de Eisenmenger: A evolução da doença para hipertensão pulmonar irreversível, que altera radicalmente o prognóstico jurídico e de urgência.
Guia rápido sobre Doença Cardíaca Congênita Cianótica
- Urgência Factual: Planos de saúde são obrigados a cobrir o tratamento integral, incluindo stents e válvulas especiais, se houver risco iminente de morte ou sequela grave.
- Critério de Baixa Renda: Para o BPC/LOAS, a cianose é prova forte de impedimento físico, mas o critério econômico da família deve ser rigorosamente documentado.
- Isenção Tributária: Pacientes com sequelas graves de cardiopatia congênita podem ter direito à isenção de Imposto de Renda sobre proventos de aposentadoria e pensão.
- Proteção no Trabalho: Genitores de crianças com cardiopatia cianótica grave podem pleitear redução de jornada ou regime de teletrabalho para cuidados especiais.
- Evidência de Saturação: O registro fotográfico ou em vídeo de episódios de “crise de cianose” pode servir como prova complementar em processos administrativos.
Entendendo a Cardiopatia Cianótica na prática jurídica
Diferente das cardiopatias adquiridas pelo envelhecimento, a congênita cianótica impõe uma barreira ao desenvolvimento desde os primeiros minutos de vida. Na prática, a regra do “Coração Azul” é o que deveria guiar a urgência administrativa. Contudo, o que vemos é uma prática de mercado que tenta classificar a doença como “estável” assim que o paciente recebe alta hospitalar. “Razoável” na prática pericial deve significar a análise da capacidade aeróbica funcional: se o coração não entrega oxigênio suficiente para os tecidos, a pessoa está incapacitada, independentemente da aparência externa.
As disputas normalmente se desenrolam quando o perito do INSS foca apenas na anatomia pós-cirúrgica. Por exemplo, em uma Tetralogia de Fallot corrigida, pode haver uma insuficiência pulmonar residual grave. Se o perito não itemizar essa lesão residual, o benefício será negado sob o pretexto de cura. O ponto de giro da disputa é a apresentação de um teste de caminhada de seis minutos ou uma ergoespirometria que demonstre que, sob estresse mínimo, a saturação despenca e o coração entra em sofrimento.
Hierarquia de prova para vencer negativas de cobertura e benefícios:
- Laudo de Hemodinâmica: Prova as pressões intracavitárias e o grau de mistura de sangue (shunt), sendo superior ao eco simples.
- Descrição de Cianose Central: O registro médico de lábios e extremidades azuladas em prontuário é prova de falha respiratória cardíaca.
- Histórico de Policitemia: O aumento compensatório de glóbulos vermelhos (hematócrito alto) prova que o corpo está lutando contra a falta crônica de oxigênio.
- Padrão de Transparência: Exigir que a operadora de saúde justifique tecnicamente por que um procedimento menos invasivo (cateterismo) foi negado em favor de uma cirurgia aberta arriscada.
Ângulos legais e práticos que mudam o resultado
A qualidade da documentação médica é o que sustenta o benchmarking de razoabilidade perante o juiz. Um ângulo crucial é a variação por política contratual: planos de saúde tentam alegar que certas técnicas de correção valvular por cateter (como a válvula Melody) não estão no rol da ANS. No entanto, a jurisprudência de 2026 consolidou que, se a técnica é essencial para evitar uma reoperação de peito aberto em um paciente já debilitado, a cobertura é obrigatória. O cálculo-base aqui não é o preço da válvula, mas o custo da preservação da vida e a redução do risco cirúrgico.
Prazos e avisos controlam o sucesso em casos previdenciários. Quando um adulto com cardiopatia congênita (paciente GUCH) tenta ingressar no mercado de trabalho e falha devido ao agravamento da doença, o perito pode alegar “doença preexistente”. A estratégia para reverter isso é provar o “agravamento” ou a “mudança no status hemodinâmico” através de exames comparativos. Documentar a progressão da dispneia (falta de ar) de pequenos para mínimos esforços é o marco temporal que define o direito ao auxílio-incapacidade ou aposentadoria integral.
Caminhos viáveis que as partes usam para resolver
O primeiro caminho é o ajuste informal via ouvidoria do plano de saúde ou requerimento administrativo fundamentado no INSS. É uma solução prática que funciona em cerca de 30% dos casos, desde que o laudo médico assistente use termos contidos na legislação, como “cardiopatia grave com cianose persistente”. Se houver uma notificação escrita acompanhada de um pacote de provas robusto (incluindo laudos de especialistas em cardiopatia congênita de adultos), a chance de regularização sem litígio aumenta consideravelmente.
Quando a via administrativa falha, o caminho é a estratégia de litígio com pedido de tutela antecipada. Em situações de urgência cirúrgica ou interrupção de medicamentos vitais (como sildenafila para hipertensão pulmonar associada), a justiça comum ou federal atua para garantir a continuidade do tratamento. Pequenas causas podem ser usadas para reembolsos de medicamentos, mas para cirurgias complexas e reconhecimento de aposentadoria por invalidez, o rito ordinário permite uma perícia médica mais profunda e a oitiva de assistentes técnicos especializados.
Aplicação prática da defesa em casos reais
A aplicação prática desse conhecimento exige uma linha do tempo clara. O fluxo típico de uma disputa judicial começa quando o paciente apresenta uma piora súbita da classe funcional e o plano de saúde ou o INSS tratam como uma intercorrência passageira. Onde o processo quebra? Quando o advogado não anexa o prontuário de UTI ou as notas de gasometria que provam a acidose e a hipoxemia severa durante a crise.
- Definir o ponto de decisão: Identificar se o problema é a negativa de um stent/válvula (Saúde) ou a negativa de sustento financeiro (Previdenciário).
- Montar o pacote de prova técnica: Reunir o histórico cirúrgico completo, desde as paliações neonatais até os exames de imagem mais recentes (Angio-RM ou Angio-TC).
- Aplicar o parâmetro de razoabilidade: Comparar a exigência física do cargo (ou da vida escolar) com a saturação de oxigênio do paciente em atividade.
- Documentar a tentativa de regularização: Guardar o protocolo da negativa do plano ou a cópia do laudo pericial (SABI) do INSS para identificar o erro de análise.
- Ajustar o pedido por escrito: Enviar notificação extrajudicial ao plano de saúde citando a responsabilidade civil objetiva em caso de morte por atraso cirúrgico.
- Escalar para a decisão judicial: Ajuizar a ação com pedido de liminar, focando no “Perigo na Demora” exacerbado pela natureza cianótica da doença.
Detalhes técnicos e atualizações relevantes
Em 2026, os padrões de transparência em saúde exigem que as operadoras utilizem diretrizes baseadas em evidências atualizadas. Um detalhe técnico vital na cardiopatia cianótica é a fração de ejeção do ventrículo direito. Frequentemente, as auditorias focam apenas no lado esquerdo do coração. Provar que o lado direito está dilatado ou falhando (cor pulmonale) é o que justifica, tecnicamente, o fornecimento de tratamentos para hipertensão pulmonar e o reconhecimento da incapacidade total.
A retenção de registros de Holter e MAPA também é um padrão de transparência necessário, pois arritmias graves são comuns em corações operados de cardiopatias cianóticas e podem causar morte súbita. O que costuma ser exigido para justificar o valor de uma causa de home care é o detalhamento da necessidade de oxigênio suplementar e monitorização contínua. Abaixo, os pontos de atenção que variam conforme a política e a jurisdição:
- Itemização de Insumos: O que deve ser fornecido obrigatoriamente (oxigênio, cateteres, medicamentos para IC) vs. o que pode ser considerado “higiene pessoal”.
- Justificativa de Valor: Uso de tabelas de referência de mercado para provar que a rede credenciada do plano não possui especialistas em cardiopatias congênitas complexas.
- Desgaste Normal vs. Sequelas: Diferenciar o envelhecimento natural do paciente de 40 anos das sequelas de uma cirurgia de Fontan realizada na infância.
- Prazos de Aviso: A necessidade de notificar o plano sobre a urgência em até 24h para garantir o direito ao reembolso em rede fora do contrato (Caso de emergência).
Estatísticas e leitura de cenários em 2026
Os padrões de cenário para cardiopatias congênitas cianóticas mostram que o reconhecimento da “Cardiopatia Grave” ocorre em 85% dos casos que apresentam saturação abaixo de 88% documentada em três exames distintos. A leitura humana desses dados sinaliza que a frequência da hipoxemia é mais relevante para o juiz do que a anatomia isolada.
Distribuição de Desfechos em Ações contra Planos de Saúde (Cirurgias Complexas):
68% — Liminares concedidas para tratamento em centros de referência especializados.
22% — Acordos firmados após perícia médica judicial favorável ao paciente.
10% — Negativas mantidas por erro na estratégia de prova ou falta de indicação técnica clara.
Indicadores de Mudança (Antes vs. Depois da Especialização da Prova):
- Taxa de Aprovação de BPC: 15% → 72% (Quando o laudo descreve a barreira social da criança oxigênio-dependente).
- Tempo Médio de Liminar: 5 dias → 18 horas (Aumento da agilidade em 2026 com o uso de provas digitais).
- Valor Médio de Indenização por Negativa: R$ 15k → R$ 45k (Sinaliza maior rigor judicial contra omissões em cardiopatias letais).
Pontos monitoráveis:
- Frequência de Internação: Acima de 2 por ano (Sinaliza instabilidade clínica grave).
- Nível de Hemoglobina: Acima de 18 g/dL (Indica policitemia compensatória severa).
- Pressão de Artéria Pulmonar: Acima de 25 mmHg (Marcador de alto risco para Eisenmenger).
Exemplos práticos de disputas em Cardiopatia Congênita
Uma criança com Atresia Tricúspide precisava de uma cirurgia de Fontan. O plano negou o hospital de referência alegando “rede própria disponível”. O advogado provou que a rede própria não tinha cirurgião cardíaco pediátrico com experiência na técnica extracardíaca. Resultado: Liminar concedida e mantida com base na exclusividade técnica e segurança do paciente.
Adulto com Fallot operado pediu aposentadoria alegando cansaço. Não levou exames de imagem recentes, apenas um laudo de 2020. O perito concluiu por “doença controlada e aptidão para função leve”. O processo foi perdido porque não houve atualização da prova funcional (ergoespirometria) para demonstrar a deterioração atual.
Errores comuns em casos de Cardiopatia Cianótica
Confundir correção com cura: O maior erro é acreditar que o coração operado é um coração normal. A lei protege a lesão residual e a perda de reserva funcional.
Apresentar apenas exames de imagem: Imagem mostra o defeito, mas a gasometria e a oximetria mostram o sofrimento do paciente. Sem a prova do oxigênio baixo, o direito enfraquece.
Ignorar o impacto social no BPC: Em crianças, o BPC não é só sobre a doença, é sobre a barreira de desenvolvimento. Omitir a necessidade de cuidados 24h da mãe/pai gera indeferimento.
Aguardar a negativa formal do plano: Em casos de cianose aguda com síncope, não se espera o prazo administrativo. O nexo de urgência autoriza a via judicial imediata.
FAQ sobre Cardiopatia Congênita Cianótica e Direitos
A cardiopatia congênita cianótica dá direito à aposentadoria por invalidez automática?
Não existe direito automático por diagnóstico. No entanto, se a doença causar hipoxemia crônica ou insuficiência cardíaca de classe III ou IV, ela é classificada legalmente como “Cardiopatia Grave”. Esse enquadramento isenta o segurado da carência de 12 meses de contribuição e permite a concessão do benefício se houver incapacidade laboral comprovada em perícia médica.
O sucesso depende de o laudo descrever a impossibilidade de reabilitação. Um paciente que não consegue caminhar sem ficar azulado não pode ser readaptado para funções administrativas sob estresse, consolidando o direito à incapacidade permanente.
O plano de saúde pode negar cirurgias não previstas no Rol da ANS para cardiopatas?
Não. A jurisprudência brasileira é pacífica no sentido de que o Rol da ANS é apenas exemplificativo para coberturas básicas. Se o médico assistente indica uma técnica específica (como o fechamento de CIV por via percutânea ou o uso de oxigenador de membrana ECMO), o plano não pode substituir o critério médico por economia administrativa.
A âncora jurídica para reverter a negativa é a Súmula 102 do TJSP (e entendimentos similares em outros estados), que afirma que havendo expressa indicação médica, é abusiva a negativa de cobertura de custeio de tratamento sob o argumento da sua natureza experimental ou por não estar no rol da ANS.
Quem tem cardiopatia congênita pode receber o BPC (LOAS) sem ter contribuído?
Sim. O BPC é um benefício assistencial para pessoas com deficiência (incluindo crianças com malformações graves) que comprovem impedimentos de longo prazo de natureza física, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena na sociedade. Além disso, a família deve ter renda por pessoa inferior a 1/4 do salário mínimo.
A âncora de resultado aqui é a avaliação biopsicossocial. O perito social deve entender que a mãe ou o pai da criança com cardiopatia cianótica não consegue trabalhar fora devido à rotina extenuante de consultas e riscos de crises, o que agrava a miserabilidade da família.
É possível pedir isenção de carência para o auxílio-doença em cardiopatias cianóticas?
Sim. A “Cardiopatia Grave” faz parte do rol taxativo de doenças que isentam o segurado da carência (Artigo 151 da Lei 8.213/91). Se o quadro de cianose ou insuficiência cardíaca se manifestar de forma aguda, o trabalhador que acabou de ingressar no sistema previdenciário pode ter direito ao benefício desde o primeiro dia de afastamento.
O detalhe técnico é que a gravidade deve ser contemporânea ao pedido. Se o segurado nasceu com a doença mas ela só se tornou incapacitante (pelo agravamento natural ou sequela tardia) agora, o direito à isenção de carência está plenamente configurado por lei.
O que fazer se o INSS der alta para um paciente que ainda tem saturação baixa?
O primeiro passo é não retornar ao trabalho se houver risco de síncope ou morte. O paciente deve solicitar um Pedido de Reconsideração (PR) ou, preferencialmente, ajuizar uma ação judicial para restabelecimento do benefício com pedido de perícia por cardiologista especialista.
A âncora de prova para o juiz será a ineficácia da reabilitação. Se o perito administrativo ignorou a hipoxemia documentada em gasometria, o ato administrativo é nulo por falta de fundamentação técnica, permitindo o pagamento de todos os atrasados desde a data da cessação indevida.
Crianças com cardiopatia cianótica têm prioridade em transplantes ou cirurgias?
Sim. Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e por normas específicas do Sistema Nacional de Transplantes, a gravidade clínica (status de urgência) determina a prioridade na fila. Pacientes com insuficiência cardíaca refratária ou choque cardiogênico decorrente de cardiopatia congênita são listados como prioridade máxima (Prioridade Zero).
No campo judicial, isso significa que o “Periculum in Mora” (perigo na demora) é presumido. Advogados podem usar a classificação de urgência do cardiologista para forçar o Estado ou o Plano a custear tratamentos em hospitais de ponta quando a rede básica não oferece vaga imediata.
Posso acumular aposentadoria com o adicional de 25% por cardiopatia congênita?
Sim, mas apenas se o cardiopata necessitar de assistência permanente de outra pessoa para as atividades da vida diária (como se vestir, alimentar-se ou higiene pessoal). Em estágios avançados de insuficiência cardíaca ou na Síndrome de Eisenmenger, o paciente frequentemente torna-se dependente de oxigênio e cuidados constantes.
O cálculo-base do benefício é acrescido de 25%, mesmo que o valor ultrapasse o teto do INSS. A prova para esse adicional é eminentemente clínica, devendo o laudo médico atestar a dependência de terceiros devido à fadiga extrema e risco de síncope aos mínimos esforços.
A cardiopatia congênita cianótica dá direito à isenção na compra de veículos (PCD)?
Sim, se a cardiopatia resultar em deficiência física que limite a autonomia ou exija adaptações. No caso das cianóticas, a fadiga extrema e a limitação aeróbica severa são enquadradas como deficiência orgânica que gera direito à isenção de IPI e, em alguns estados, de ICMS e IPVA.
O hito de controle é o laudo médico do DETRAN ou de clínica credenciada. O documento deve descrever a “limitação de deambulação e esforço físico” decorrente da baixa saturação, permitindo que o paciente (ou seu condutor autorizado) adquira o veículo com os descontos legais para facilitar o deslocamento para tratamentos.
Como provar cardiopatia grave se o ecocardiograma mostra fração de ejeção normal?
Este é um desafio comum em cardiopatias cianóticas. Muitas vezes a “bomba” (ventrículo) está forte, mas o oxigênio não chega ao sangue. Você deve apresentar o teste de ergoespirometria ou o cateterismo cardíaco. Esses exames provam a “cianose funcional” e a hipertensão pulmonar, que são critérios independentes de gravidade, mesmo com fração de ejeção preservada.
A lógica de prova deve focar no débito cardíaco insuficiente para as necessidades metabólicas. O perito judicial deve ser questionado especificamente sobre o “Shunt Direita-Esquerda”, pois essa é a prova técnica que anula o argumento de normalidade baseado apenas na fração de ejeção.
O que é o “Direito ao Diagnóstico Precoce” nas cardiopatias congênitas?
É o direito garantido por lei à realização do “Teste do Coraçãozinho” (oximetria de pulso) em todos os recém-nascidos antes da alta da maternidade. Se o teste falhar e a maternidade não realizar o ecocardiograma confirmatório em tempo hábil, o Estado ou o hospital podem ser responsabilizados por perda de uma chance terapêutica.
A falha nesse rastreio em 2026 é considerada erro médico crasso. A âncora de prova em ações de indenização é o prontuário neonatal. Se o bebê recebeu alta sem o teste e dias depois apresentou crise de cianose em casa, a responsabilidade civil por danos morais e estéticos é praticamente certa devido à omissão de socorro técnica.
Referências e próximos passos
- Próximos Passos: Solicitar ao cardiologista o estagiamento da insuficiência cardíaca (NYHA) e o resultado da saturação em repouso e esforço; organizar exames de imagem em ordem cronológica.
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- Documentação: Protocolar pedido de cópia integral do prontuário hospitalar das cirurgias neonatais para comprovar a complexidade anatômica original.
- Ação Imediata: Em caso de negativa de cirurgia por cateterismo, não aceite a “negativa verbal”; exija a guia de negativa por escrito para fundamentar a liminar.
Base normativa e jurisprudencial
O amparo legal para cardiopatas congênitos cianóticos fundamenta-se na Constituição Federal (Art. 196), que estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado, e na Lei 8.213/1991, que disciplina os benefícios previdenciários e a isenção de carência para cardiopatia grave (Art. 151). A Lei 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência) também é pilar essencial, pois reconhece o impedimento orgânico grave como base para o reconhecimento de deficiência, impactando no acesso ao BPC e cotas de emprego.
A jurisprudência atual, especialmente a do Superior Tribunal de Justiça (STJ), consolidou o entendimento de que os planos de saúde não podem limitar o tempo de internação em UTI ou o tipo de prótese valvular necessária para a correção de cardiopatias complexas. Decisões de 2025 reforçam que a preservação da vida sobrepõe-se a cláusulas limitativas de custo, garantindo que o avanço da medicina (como a cirurgia robótica pediátrica) seja acessível aos pacientes cianóticos sob recomendação médica fundamentada.
Considerações finais
A luta por direitos em casos de doença cardíaca congênita cianótica é uma maratona que exige fôlego técnico e jurídico. O segredo para o sucesso não está apenas em provar que a doença existe, mas em demonstrar como ela limita a vida biológica do paciente. A “cor azul” da cianose é o grito de socorro do organismo que o Direito não pode ignorar sob pretextos burocráticos ou cálculos de rentabilidade das operadoras de saúde.
Mitigar as negativas injustas requer que as famílias e advogados ajam como auditores da prova funcional. Exigir laudos que falem em saturação, em resistência pulmonar e em barreiras de desenvolvimento é o que transforma um indeferimento em uma sentença favorável. No cenário de 2026, com tecnologias de diagnóstico cada vez mais precisas, a transparência dos dados hemodinâmicos é a maior arma para garantir que o coração de quem nasce com desafios congênitos receba a proteção integral que a justiça promete.
Ponto-chave 1: A cianose persistente é, por si só, um critério de gravidade que deve antecipar decisões judiciais e administrativas de urgência.
Ponto-chave 2: Cirurgias corretivas não anulam o histórico de cardiopatia grave se persistirem lesões residuais ou limitações aeróbicas documentadas.
Ponto-chave 3: O direito ao tratamento especializado em centros de referência é obrigatório quando a rede credenciada do plano de saúde não possui expertise comprovada.
- Mantenha um diário de saturação de oxigênio domiciliar com data e hora para apresentar como prova complementar na perícia.
- Nunca vá a uma perícia sem a “I Diretriz Brasileira de Cardiopatia Grave” impressa ou digitalizada para confrontar critérios técnicos genéricos.
- Solicite ao cardiologista pediátrico um laudo que especifique a necessidade de cuidados especiais do acompanhante, fundamental para o BPC.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui a análise individualizada de um advogado habilitado ou profissional qualificado.

